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ÚRSULA

Foto do escritor: sociaisemrede
sociaisemrede
18 de ago.
2 min de leitura

(Maria Firmina dos Reis)


O século XIX, foi marcado pelo silenciamento das mulheres, principalmente

as marginalizadas e as que estão fora de determinados ciclos sociais. Maria Firmina dos Reis, não fugiu à regra, mulher negra, nascida no maranhão em 1825, descendente de família humilde, obteve a sorte de ser criada por uma tia de poder aquisitivo superior, onde pode ter oportunidade de estudar, despertando cada vez mais o seu interesse pela leitura. Tornou-se professora, começou a escrever contos, poesias, composições, como o Hino

a Liberdade dos Escravos e romances. Criou a primeira escola mista gratuita em Guimarães -MA e foi a primeira mulher e negra a escrever um romance abolicionista. Uma obra escrita em 1859, esquecida por mais de um século e redescoberta pelo colecionador Horácio

de Almeida em 1962, que por achar curioso o pseudônimo “Uma Maranhense”, algo muito comum na época, ficou instigado o levando a querer conhecer o seu enredo.

Um epistemicídio que segundo Sueli Carneiro não bastava escravizar, foi preciso

o apagamento intelectual. A partir desse encontro da obra com Horácio, a visibilidade sobre Maria Firmina só crescia, criando uma tendência e encorajando outras mulheres

a romper o silêncio a partir da escrita. Pois a escrevivência dita por Conceição Evaristo, está implícita neste romance de maneira sutil, porém precisa, quando o relato é dito partir de experiências reais, de seus lugares de fala. Firmina traz em Úrsula a humanização do escravizado, o protagonismo negro feminino, como a da personagem Mãe Susana, quando descreve de maneira clara sua experiência no navio que transportavam os escravos e a maneira como eles eram retirados de seus habitats naturais bruscamente por exemplo, além da crítica ao patriarcado e a escravidão, antes mesmo dela acabar. Maria Firmina é anticanone porque deixa o negro falar por si enquanto Castro Alves é considerado Cânone porque fala sobre o negro para comoção. Com isso, o apagamento de Maria Firmina não foi por qualidade literária, e sim por disputa de quem pode narrar os fatos, ou seja, quem faz a história e quem a conta. Quando ouvimos a mãe Susana, Túlio entre outros personagens, entendemos por que Maria Firmina está presente na atualidade. Lá em 1859 Reis fez o que Sueli Carneiro chama de enegrecer a literatura. Úrsula não é só um romance abolicionista, é um livro que há mais de um século respondia o questionamento de: cadê

a voz da mulher negra contando a própria história? Quantas Prestas Susana não existiram? Maria Firmina não teve Sueli Carneiro para ler e nem Conceição Evaristo, mas nós temos as duas e essa luta é antiga, estamos apenas continuando. Perceber que a literatura brasileira, foi constituída excluindo muitas vozes e que Maria Firmina foi uma das primeiras a quebrar esse padrão, mesmo sendo silenciada, é constatar que a história poderia ser escrita de outra maneira.


Fabrízia Souza (COMUDI)


(Hino a Liberdade dos Escravos – Maria Firmina dos Reis)

Salve Pátria do Progresso!

Salve! Salve Deus da Igualdade!

Salve! Salve o Sol que raiou hoje Difundindo a Liberdade!

Quebrou-se enfim a cadeias Da nefanda Escravidão!

Aqueles que antes oprimias,

Hoje terás como irmão!

 
 
 

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