Reflexões sobre o processo
Encerradas nossas atividades com o 1º ano A da EREM Prof. Cândido Duarte, chegou a hora de reunir as reflexões que realizamos durante o processo e após sua conclusão. Podemos dividir nossas considerações em dois grupos: condições objetivas de trabalho na escola e presença da Cultura Digital nas atividades pedagógicas.
No total, entre março e junho, com pequenos e grandes intervalos entre os encontros, conseguimos efetivar 7 aulas. Em cada encontro, tivemos grande variação do número de estudantes presentes, sendo preocupante o número de faltas, o baixo engajamento nas atividades, a dificuldade em dar continuidade e aprofundar as discussões. Os estudantes não recordavam os temas de seus grupos, não conseguiam realizar pesquisas fora do horário da própria aula.
Consideramos se tais condições são características desta escola ou do modelo de educação de tempo integral. Como eles ficam na unidade das 7h30 às 16h45, o esperado é que realizem todas as tarefas dentro da escola, mas não há espaços ou a possibilidade de uso de equipamentos para uma pesquisa (como acesso ao laboratório de informática sem a presença de um docente) ou para a produção de slides usando os notebooks. A própria escola, que por lei proíbe a presença dos celulares, depende destes aparelhos para que os alunos realizem tarefas solicitadas pelos professores. Assim, mesmo quando os estudantes estão em horários “livres”, ou seja, sem uma aula (geralmente por falta de professores), não dedicam esse tempo aos estudos ou produções pedagógicas, pois não encontram um ambiente propício para isso.
Também chamou nossa atenção a necessidade em utilizar diferentes espaços da escola para realização dos encontros, entre sala de aula, biblioteca e auditório. Nosso primeiro encontro foi na sala de aula, onde não há condicionadores de ar funcionando, mas apenas ventiladores, que produzem forte ruído. A intenção da professora era estarmos sempre na biblioteca, ambiente refrigerado e com mesas para trabalho coletivo, mas o espaço precisa ser compartilhado com outros docentes. Em nenhum momento utilizamos o laboratório de informática, por ser reconhecidamente um espaço muito apertado e com computadores mais antigos e alguns sem funcionar. A orientação era utilizar o laboratório móvel: carrinho com 20 notebooks. Realmente, estes equipamentos são mais novos e estão funcionando bem, mas envolvem uma questão logística. É preciso levar o carrinho para a sala, retirá-los, ligá-los, conectar à internet (neste caso, ao roteador do celular da ministrante, pois o Wi-fi da escola não atende as salas de aula), acessar a plataforma ou site de interesse para a aula, entregar os equipamentos prontos para os grupos. Percebemos essa dificuldade no primeiro uso do laboratório móvel e nos planejamos melhor para o segundo uso. Mas só funcionou porque contamos com uma equipe grande: enquanto uma pessoa apresentava as instruções usando o projetor, outras três pessoas preparavam os notebooks. Se fosse apenas a professora para realizar toda a logística, grande parte da aula seria tomada para tal preparação. Este tipo de relato sobre as dificuldades operacionais para uso das Tecnologias Digitais em sala de aula são recorrentes entre os professores e têm representado uma das principais barreiras.
O foco pedagógico estava no desenvolvimento do pensamento crítico sobre os temas escolhidos, tendo como base científica as contribuições das Ciências Sociais, e a inserção de Tecnologias Digitais no processo de ensino-aprendizagem. Nossa proposta de trabalho trazia o uso das Tecnologias Digitais em diferentes situações, de modo a aproveitar o nível de conhecimento dos estudantes e buscar ampliar suas habilidades. Ainda, refletirmos sobre questões éticas relacionadas ao uso de ambientes digitais online. Assim, os recursos digitais foram inseridos no processo com diferentes propósitos, tornando sua presença parte do processo de aprendizado, e não um fim em si mesmo. Foi possível, no âmbito do letramento digital, realizar visualização de dados de pesquisa disponíveis online; busca por fonte de informação confiável; busca por referências (vídeos, músicas, imagens); produção com recursos digitais (slides, colagem digital); discutir sobre direitos autorais e uso de imagens em atividade pedagógica; o manuseio de diferentes dispositivos, incluindo celular, tablet e notebook. Inicialmente, poderia parecer “natural” o uso desses recursos, mas vale ressaltar sua intencionalidade.
A dinâmica na sala de aula revelou alguns pontos importantes. É muito presente a “cultura da eficiência”, ou seja, a capacidade de realizar uma tarefa da melhor forma possível utilizando o mínimo de recursos, como tempo, energia e esforço. Assim, o grupo identificava um integrante que representava o “líder”, definindo as ideias, e o mesmo ou outro integrante com habilidades digitais mais avançadas para operar o notebook. Neste arranjo, apenas um ou dois estudantes executavam “da melhor forma em menos tempo” a tarefa e os demais não precisavam se dedicar à discussão ou desenvolvimento do artefato digital. Para serem ainda “mais eficientes”, usavam o ChatGPT para construir textos, frases ou sugerir ideias do tipo de imagens que poderiam usar na colagem digital. Os mais interessados em trabalhar no campo imagético ainda realizaram pesquisas na plataforma Pinterest ou no Google, levando as imagens escolhidas para compor as colagens dentro do Canva. Essa postura apenas reforça o que os estudantes absorvem como objetivo do processo educativo: “cumprir a tarefa e receber a nota”.
Mas há uma fagulha de esperança. Os momentos de diálogo com os estudantes continuam estimulantes. Ao ampliar os espaços e tempos de fala, permitindo que contem suas histórias, tragam seus exemplos, associem a teoria ao mundo da vida, é possível perceber interesse em saber, em pensar criticamente. Talvez a sala de aula seja o único espaço em que estão sendo estimulados a isso. Então que esse tempo não seja subordinado a avaliações padronizadas, a tarefas repetitivas, a eficiência, lembrando que participamos de um processo educativo, e a melhor parte é viver cada momento.


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