Algumas pistas de decolonialidades na obra de Guimarães Rosa
Guimarãens Rosa foi um dos grandes escritores brasileiros do Século XX e este texto, longe de pretender entrar no rol do tanto que já se produziu sobre a obra do autor ou de efetuar crítica literária, tenta aproximá-lo do campo das Ciências Sociais e em especial da área de estudo de decolonialidades.
Podemos discutir decolonialidades a partir da leitura do autor tanto em torno de sua biografia como de sua produção literária. A história de vida de Guimarãens Rosa aponta, dentre outros elementos:
- A atitude sua e de sua esposa quando o autor trabalhou como cônsul do Brasil na Alemanha, no período expansionista alemão durante a primeira Guerra Mundial. Usando das informações e dos caminhos disponíveis no país em que trabalhava, ele não se alia ao sistema vigente e consegue vistos para que judeus deixem o país e se exilem no Brasil.
- Poliglota, falante de nove línguas, o intelectual traz em sua obra a linguagem e o jeito de falar da gente simples dos sertões e não faz uso das línguas dos colonizadores ou de estrangeirismos em nenhuma de suas obras.
- Objeto de desejo entre boa parte dos escritores brasileiros, é convidado a assumir cadeira na Academia Brasileira de Letras, rejeita e demora quatro anos a assumir o posto de acadêmico, tendo ficado neste posto somente por três dias, uma vez que morreu logo após a posse.
Em suas obras também podemos destacar elementos que trazem pistas para colocá-lo como um dos literatos que pode ser lido dentro dos estudos sobre decolonialidade:
- As obras “Manuelzão e Miguelin” e “Noites do sertão” foram escritas em meados da década de 50, numa época em que o país vivia em meio a projetos nacionais desenvolvimentistas e mudança do perfil de moradia do conjunto da população do ambiente rural para o urbano, do trabalho no campo para as indústrias. Guimarãens Rosa, alheio a estas mudanças sociais, segue mostrando em suas obras modos de vida daquela população que a esta altura não representava no imaginário do brasileiro o melhor caminho para uma vida “feliz” ou desejada.
- “Grande sertão veredas”, internacionalmente reconhecida como uma obra-prima, olha para os papéis masculino e feminino de maneira distinta do que o Brasil católico e conservador dominante daquela época considerava como uma relação normal. Os jagunços Teobaldo e Diadorim protagonizam durante a maior parte da trama uma paixão homossexual, que só se sabe heterossexual no fim do romance, quando todo o sentimento dos personagens já tinha sido explicitados no conjunto da obra: um amor entre jagunços que se supunham do mesmo sexo.
“Meu tio o iaruretê”, conto de “Estas estórias”, livro de publicação póstuma, aproxima de forma crescente ao longo de suas páginas um onceiro do animal do qual aparentemente foi e deveria continuar a ser algoz. O conhecimento dos hábitos das onças e formas de ser e se aproximar das gentes é fartamente exposto ao longo do texto, como se estivesse de fato a falar de um parente ou alguém muito íntimo. O diálogo com um visitante (real ou suposto) traz essa relação entre seres humanos e animais selvagens para o diálogo. Não há sinais na obra do distanciamento comum em outras obras entre a emoção, intuição, ações inatas e o racionalismo humano em geral prevalecente. O conto não permite supor o primado racional sobre outras formas de comportamento.
Para finalizar deixamos como pista para outras reflexões o que trouxe de forma mais explícita nos dois parágrafos acima, de histórias que tomam os leitores pelas emoções e que deixam-nos fartos elementos de empatia com animais e com personagens humanos fora do cânone aceito e desejado pela maioria das pessoas em nossa sociedade. O sertanejo, os animais, as crianças, o homossexual parecem-nos permitir aproximação da literatura de Guimarãens Rosa com o que nos últimos tempos tem sido estudado pelas Ciências Sociais no que tem sido chamado de decolonialidades.



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