A volta dos hobbies na geração do desempenho
Maria Cecília Duran C. Santos
Nesses dias em que sou sobrecarregada de conteúdos nas redes sociais, percebi uma grande movimentação da minha geração, a geração TikTok, para a figura enigmática do hobby. Como Byung Chul Han traz em "Sociedade do Cansaço” (2014), vivemos em uma sociedade que produz o tempo todo, “uma máquina de desempenho autista”, ou seja, um mundo com falta de alteridade ou empatia em que o indivíduo absorve os estímulos e conteúdos sem filtro, de forma descontrolada e sem hesitação. Bom, eu entendo como pode ser lido de forma um tanto errada essa expressão, ao se utilizar de uma neuro divergência o autor sugere que vivemos em uma sociedade do desempenho e consequentemente com toda sua hiperprodutividade, uma sociedade cansada e individualista. A geração Z surge como um exemplar desse funcionamento maquinário, uma procura pelo fazer esquecendo o tempo do não fazer.
Então surge essa contraposição da ideia do hobby. Pela definição do nosso amigo Google: “Um hobby (ou passatempo) é qualquer atividade de lazer praticada por prazer e relaxamento nos tempos livres, e não por obrigação profissional. Como seria possível que a geração que mais se encontra no meio de sua total potência de produtividade, conteúdo sem fim, individualismo e a falta de ociosidade, também se tornou a geração que mais prega o uso de um passatempo. O hobby é, por assim dizer, inútil para a sociedade de desempenho. Para que fazer esse desenho, ou pintar um quadro, ou montar quebra cabeças se isso não nos dará dinheiro? Como fazer do hobby uma mercadoria se ele foi feito para não se encaixar em um mercado produtivista?
Então entra a ideia mercadológica e anti-produtivista dos clubes de hobby. Atualmente todo conteúdo produzido precisa ser monetizado, precisa ser mercantilizado. Estamos em uma era em que a produção digital está sendo muito mais valorizada do que os trabalhos mais tradicionais. Inclusive, muitos estão largando seus trabalhos de carteira assinada para ser produtor de conteúdo em ambientes digitais. Com o aumento de casos de burnout e depressão em uma sociedade que tanto valoriza a produtividade, o hobby se tornou o momento essencial para despressurizar o cotidiano violentamente cansativo. Apesar de se encaixar em uma forma de negócio, os clubes de hobby surgem como uma forma de monetizar e, também, coletivizar essa despressurização. Uma forma de ganhar dinheiro ao reunir pessoas de todo o tipo para construir coisas inúteis e interagir sem necessariamente fazer o que não gosta.
Em meio a cena artística recifense e sua presença nas redes sociais, acabei me deparando com clubes que promovem encontros artísticos em parques, em que fazem algum objeto de miçangas ou com cerâmica e argila. Clubes que promovem apenas momentos de encontro (até mesmo não monetizados), em que cada pessoa faz o passatempo que achar melhor ou que já faz na solidão de suas casas. A geração do individualismo pode se tornar a que mais coletiviza, durante um momento de prazer e ociosidade. Um momento extraordinário, no sentido literal da palavra, em relação a um dia a dia de produção e trabalho se tornou ainda mais coletivo e presente e até mesmo, uma forma de ganhar dinheiro sendo completamente inúteis para o sistema de grande desempenho em que vivemos. Portanto, viva a geração tiktok, a geração digitalizada, que anda criando pequenas revoluções anti-produtivistas na nossa sociedade do desempenho. Quem sabe não instauramos uma sociedade hobbysta?!

Comentários